psicanálise para quê?

Friday, April 14, 2017

PEQUENA NOTA SOBRE O DESEJO

Existem muitas maneiras de escamotear o desejo e na grande maioria delas não nos damos conta:a que vou citar aqui como exemplo, é uma bastante corriqueira. Aquela onde não cumprimos nossa palavra. Disse-nos um poeta, não me lembro qual e nem vou me dar ao trabalho de procurar, pois não concordo com o dizer, que é: "palavras voam ao vento...". Não concordo e não aprecio. Palavras tem consequências. Sempre. O que quer o senhor da loja onde vamos comprar algo que nos diz: " telefone entre 12 e 14 horas para lhe dar o orçamento". E não telefona. Quando voce liga as 16 h e pergunta o que houve, vai escutar alguma desculpa como por exemplo a que ouví outro dia,"desculpa-me senhora, o vendedor não apareceu para fazer o orçamento". "Culpa/desculpa" sintominha básico de desejo recalcado na neurose obsessiva. E a culpa é minha? Claro que não, é sempre do outro, não é? Que idade tem este senhor? 3 aninhos? Como consegue trabalhar? Certamente mal, penso eu. Se sua responsabilidade fosse clara, ele estaría sustentando aquilo que diz respeito ao seu desejo. E aquele outro senhor que diz: " Quero muito te encontrar para conversarmos ". "Vamos nos ver tal dia?" Você concorda e ele não aparecerá e nem telefonará para te avisar.
Chocante é ver a enorme alienação que existe em cada pessoa, que se não se enxerga, como irá enxergar os outros? Tornamo-nos mais irresponsáveis com o passar do tempo? É claro que há culturalmete um aumento enorme no que diz respeito a falta de cordialidade e civilidade entre as pessoas. Queremos isso? Eu sei que não, procurarei sempre me relacionar com quem tiver assentado em sí estas leis.

O QUE HÁ COM OS APLICATIVOS DE RELACIOANMENTOS?

Cada vez mais homens e mulheres utilizam estes diversos aplicativos no celular para buscarem parceiros para se relacionar. E isto dá certo?
Outro dia ouvi duas coisas que me fizeram escrever este texto: uma foi um rapaz dizendo que nestes aplicativos, 60% das mulheres são loucas, 20% só querem uma noite de sexo e sobram 20% para tentar namorar. A outra foi que a mulher estava tristíssima pois o homem com quem saía há um mês, dizia que a amava e na hora do sexo afirmava "sou seu". E desapareceu sem nenhuma explicação.
Noto que cada vez mais as pessoas que buscam estes relacionamentos sentem-se tristes, sozinhas e carentes. E estando assim, vão ao encontro do outro,  e, se este outro tem as caracteristicas que são valores para sí, acabam por se lançar de uma forma mega intensa devido a este buraco gigantesco que carregam em seus corações, e depois, o que acaba acontecendo?  No primeiro sinal de algum elemento que destitua esta ilusão de "é este" ou "é esta", se frustram enormemente, e acabam por desaparecer sem dar nenhuma explicação deixando o outro sem entender nada. Não há  ninguém perfeito e muitas vezes notamos que há reações medrosas do outro lado também. Porque de fato, o que anda acontecendo por aí, é que quase ninguém olha para dentro de sí mesmo, e projeta no outro, suas expectativas e suas frustrações também. Enquanto homens e mulhers não puderem desvendar seus medos, suas fraquezas, suas dificulades, suas dores, não olharem para dentro de seu interior, vão continuar sofrendo de uma enorme solidão e fazendo apostas no vazio.
Sugiro que quando conhecerem alguém, deixem a máscara de lado, sejam claros naquilo que são e que pensam. E sejam generosos com vocês e com o outro. Tentem conhecer e aceitar a diferença. Diferença não é defeito, é só diferença e geralmente serve para nos enriquecer.

AMORES LÍQUIDOS

Zygmunt Bauman em seu livro Amor Liquido já nos alertava sobre a fragilidade dos laços humanos, e hoje com os aplicativos em celulares para encontros amorosos, esta fragilidade está cada vez mais adensada.
Vemos pessoas extremamente carentes, sejam os loucos para se envolver, ou os que  buscam sexo casual, todos carentes e sem condição de fazer laços, pois sempre haverá a possibilidade de encontrar aquela pessoa melhor que esta de hoje. Ver tanta gente se propondo a no minimo falar com você, promove uma dificuldade enorme destas pessoas se relacionarem de verdade.
É uma grande ilusão que estes sites proporcionam. Cada um entrando com suas necessidades e expectativas e a maoir parte já cansada de tanto tentar engendrar um laço, se frustrando com cada parceiro que chega na maioria das vezes com palavras extremamente afetuosas e desaparecem depois do primeiro, segundo ou oitavo encontro.
Fico pensando porque estas pessoas não se colocam mais claras, já no pequeno texto onde se apresentam e assim que começarem a falar com uma pessoa, bloqueiem todas as outras possibilidades e se atenham a conhecer esta uma, de modo verdadeiro?
Sei de homens que já colocam neste dizer sobre sí que não querem mulheres dependentes financeiramente. É claro, que isso pode ser dito, e as mulheres também podem dizer, pois há muitos homens em situação de desemprego que buscam uma parceira para lhe apoiar financeiramente.
Mas além disso, podem dizer muito mais em poucas palavras. Contando que sejam claros e verdadeiros naquilo que pensam e sentem.
Este já é um caminho que possibilitará evitar uma série de encontros frustrantes.
E sabemos, ninguém nasceu para viver só.

Friday, November 25, 2011

E SOBRE O AMOR..MAIS UMA VEZ...

É impossivel o amor entre o homem e a mulher? Entre aqueles que ocupam a posição homem e a posição mulher?

A mulher quando na relaçao amorosa, o que ela busca? Ela quer SER amada. E o homem? Ele quer TER a mulher como sua, seu objeto de desejo e/ou amor.

Quando está amando, a mulher espera que o homem cuide dela, a proteja, e este cuidado pode variar muito, por exemplo, desde que seja seu provedor e neste sentido ela o indentifica como o pai ideal, até os cuidados mais simples, tais como, ficar ao lado dela quando ela estiver doente ou triste. Ou que ele se mostre mais romantico dos homens, cobrindo-a de mimos. Oferecer-lhe flores, presentes, abrir a porta do carro, dizer que a ama e a deseja, é o que todas esperam de seus amores. Mas como sabemos, nem sempre, por mais que os homens o façam, elas sempre estão se queixando. Isso porque a a maioria delas para sentirem-se existindo, precisam manter o seu desejo insatisfeito.
Agora, O homem quando ama, ele também espera que a mulher cuide dele. E quando isso acontece, ele está a indentificando como sua mãe.E muitas vezes ao identificá-la assim, ele pára de desejá-la sexualmente. E quando isso acontece, ele deixa de também levar flores, levar para jantar, etc. Agora, quando a deseja, ele tem muita dificuldade de sentir que a ama, ele não a trata como ela precisa ser tratada e a vê como a mulher mais sensual e sexual do mundo. De um modo geral ou ele estará amando ou desejando, e para a maioria deles esta junçao entre o amor e o desejo é extremamente dificil, fica-se na posição do ou/ou, ou isso ou aquilo. Isto nos mostra que ele para se reconhecer subjetivamente, precisa manter seu desejo como impossivel
O que quero então dizer aqui é que a relação amorosa é impossível?
Não, mas temos que a prender a lidar com o possivel dela, pois amar é dar o que não se tem e neste jogo do amor, precisamos saber, que na maior parte do tempo, ocuparemos as duas posições subjetivas ao mesmo tempo e neste caso, é bom lembrarmos sempre de nossos limites.

Friday, November 26, 2010

DIVERSIDADE SEXUAL( TEXTO APRESENTADO NO SEMINÁRIO: ESTATÍSTICA E INDICADORES SOCIAIS. NA UFRJ EM 18/11/2010.

Sabemos que o Censo, mais conhecido como recenseamento demográfico, é uma pesquisa sobre a população que traz informações tais como número de habitantes, como vivem as pessoas, qual a renda e composição familiar, dados de raça e religião, etc... Mas hoje em dia nos mostra principalmente como nos transformamos e nos diferenciamos ao longo das décadas. Pois houveram mudanças nos padrões não só demográficos, socioeconômicos e de organização espacial da população, mas principalmente nos costumes da população.

E é justamente sobre esses costumes que desejo falar. Pois não sei se todos sabem, mas foi incluído no Censo 2010 uma nova pergunta:

“Quem vive com você é do mesmo sexo ou do sexo oposto ao seu?”

Pergunta esta que vem trazer visibilidade ao número de casais homossexuais que vivem juntos ou "casados". Fizeram uma contagem parcial do número de homossexuais existentes no Brasil. Mas por que será que surgiu essa pergunta?

Todos nós sabemos que a homossexualidade existe desde a Grécia Antiga e que até hoje existem países onde a homossexualidade é punida com prisão e até morte. Agora, vamos ver o que é a homossexualidade?

Freud, o pai da psicanálise, que veio desvendar as questões mais obscuras da mente humana, possuía uma compreensão acerca da sexualidade humana como “perversa polimorfa”, ou seja, como, ao nascermos, não temos inscrito no nosso inconsciente qual é o nosso próprio sexo anatômico e muito menos qual é nosso objeto do desejo sexual, a princípio, “todos seres humanos são capazes de fazer a escolha de um objeto homossexual e que de fato, esta escolha foi consumada no inconsciente.” Ele dirá também, referindo-se a estrutura psíquica "normal", que originariamente somos todos bissexuais. Essa organização psíquica se constitui na primeira infância, ou seja, entre 0 e 3 anos de idade.

Em 1930, Freud assinou a primeira petição discriminalizando a homossexualidade e em 1935, dirigindo a mãe de um homossexual, afirmou que “a homossexualidade não é motivo de vergonha, não é uma degradação, não é um vício, e não pode ser considerada uma doença”. Mas foi somente em 1973 que a American Psychatric Association (associação psiquiátrica americana), deixou de considerar a homossexualidade como doença e isso se deu somente porque ativistas gays em 1970 e 1971 invadiram o encontro anual da APA. Ao mesmo tempo aconteciam outras manifestações nos EUA tais como a Stonewall, que vocês devem ter visto naquele filme “Milk”.

Mesmo assim existiam movimentos contrários ao da APA, como por exemplo 200 assinaturas colhidas na IPA – Associação Internacional de Psicanálise, que se colocavam contra e fizeram inclusive um manifesto tentando impedir a retirada da homossexualidade da lista de doenças.

Mas foi só em 1993, que a OMS – A Organização Mundial de Saúde – retirou a homossexualidade da lista de doenças. Vamos olhar para essas datas, porque que a humanidade tem tanta resistência a uma coisa tão normal quanto a homossexualidade?

Essas datas só nos mostram a enorme resistência da humanidade em aceitar sua homossexualidade recalcada. Pois de acordo com a própria questão da “perversão polimorfa”, em nossa infância, necessariamente teremos de fazer uma escolha do objeto sexual e deixaremos as demais possibilidades recalcadas. E para a maior parte dos sujeitos o que fica recalcado ou é a homossexualidade ou a heterossexualidade. Em minha prática clínica de mais de 30 anos sempre me surpreendeu aquelas pessoas que não questionaram em algum momento sua sexualidade, pois ela é sempre questão em todos os seres humanos.

E aquilo que vemos no social é que quanto maior for nossa dificuldade em aceitar em nós a homossexualidade recalcada, maior a possibilidade que temos de fazer deste outro, que pensamos ser tão diferentes de nós, objetos de nosso ódio, daí é que vemos tantas agressões e até assassinatos.

Voltando a questão dos homossexuais que foram parcialmente contados no Censo 2010 e sabendo que toda resistência sobre a sexualidade é inconsciente, arrisco-me a pensar o seguinte:

Lacan, ao pensar sobre os registros do funcionamento psíquico da realidade humana, nos diz o seguinte: Aquilo que está no real precisa ser simbolizado, pois o que existe no real, caso não seja simbolizado, retorna para o mundo de modo fantasmático. Ou seja, existem casais homossexuais que estão “casados” no Brasil, isto é real. O Censo 2010 começou a dar visibilidade a esses casais contando-os e isto os registra, certo? Isto é simbólico. Será que isto é um dado positivo que irá embareirar a fantasmagoria da falta de respeito aos gays e fazer com que haja uma mudança na lei de “união estável” no código civil? Código este que, perversamente, sobrepuja a soberania da Constituição Brasileira, onde está escrito que todos os cidadãos são iguais perante a lei?
Penso também que, enquanto formos tão atrasados e ignorantes, teremos que ter várias classificações para os seres humanos, que deveriam a meu ver serem nomeados somente assim: seres humanos.

Friday, February 26, 2010

CASAL FELIZ, EXISTE???

Vou dizer o que penso do ponto de vista da psicanálise sobre este artigo: O segredo do casal feliz: compartilhar alegrias
A chave para manter viva a magia do casamento é encontrar meios para promover aspectos positivos; a maneira de lidar com boas notícias pode ser mais decisiva para o relacionamento que a capacidade de oferecer apoio um ao outro em situações difíceis. Veja o que a ciência tem a dizer sobre a intimidade
http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/o_segredo_do_casal_feliz_compartilhar_alegrias.html



CASAL FELIZ: ISTO EXISTE?

Palavras totalizantes não correspondem a nenhuma realidade. Primeiramente porque casal é uma palavra que define duas pessoas que escolheram estar juntas de uma forma bastante particular para cada uma delas. Segundo porque a felicidade enquanto toda não existe, pode ser até que alguns se encontrem felizes várias horas de seus dias, mas o tempo de uma existência é muito para este ou outro sentimento prevalecerem devido a complexidade do sentir do ser humano.
Mas, de qualquer modo, acredito que possa um casal ter mais bons sentimentos um pelo outro em relação a serem um casal do que sentimentos ruins. Mas isto depende de um trabalho constante, vou dizer porque:
Como se define um bom casamento? Ou um bom namoro ou relacionamento?
Para que um casamento ou relacionamento dure um bom tempo ou para toda a vida, é necessário que as pessoas envolvidas por se amarem tenham cada uma sua vida tomada de forma particular. e que além de gostarem de fazer sexo juntas, gostem muito de conversar. Digo isto porque casamento onde um não tome o outro como objeto de seu desejo sexual ou não se interessem em conversar, acabam ou continuando juntos infelizes ou se separam muito rapidamente.
Não há ninguém igual a ninguém neste mundo. E cada um tem seus próprios interesses, sejam da ordem do profissional ou pessoal e isto é fundamental, pois, apesar de também ser necessário existirem projetos que sejam compartilhados um com o outro, de preferência que estes sejam muitos, não é saudável abrir mão de seus projetos pessoais para se manter atraente um para o outro. O problema é quando um dos dois ou os dois não aceitam que o outro seja diferente dele e fica tentando mudar o outro para que se adeque ao seu jeito de ser, de preferência que aja como ele próprio. Se pudermos pensar que é a não aceitação das diferenças que provoca as guerras no mundo, talvez possamos começar a pensar em aceitar as diferenças do outro ser humano que está alí ao nosso lado.
A razão pela qual um tenta controlar o outro, modificar o outro é por não aceitar o outro como pensando diferente de sí mesmo. Ou seja: todo amor é puramente narcísico, especular? Lacan já nos dizia: amar é aceitar a diferença. A paixão é somente da ordem da ignorância, o amor é da ordem da diferença.
Primeiramente nos apaixonamos e só depois é que se constrói a relação amorosa. E cada dia mais, as pessoas estão cada vez mais narcisistas e quando aparece alguma coisa no outro que não os satisfaz, rompem os laços com a maior facilidade. Isto é a grande burrice de nossa contemporaneidade, a burrice da neurose, que nos faz repetir os mesmos padrões de relacionamento em todos os laços. Repetir, repetir, até morrer, estamos fadados a jamais encontrar o chamado "verdadeiro amor"? Ou então vamos trabalhar em nós mesmos a aceitação das diferenças para assim acedermos ao desejo de amar.

Sunday, December 27, 2009

OS LIMITES DE UMA PRÁXIS: O QUE PODE UM PSICANALISTA?
Certa vez uma velha dama da psicanálise me disse: "indico esta pessoa para voce pois sei que, caso tenha que escolher entre a pessoa e a psicanálise, escolherá a pessoa"
Na época não entendí bem a que ela se refería, mas há algum tempo me veio o sentido deste dito ao conversar com um amigo psiquiatra sobre uma mulher que indiquei a ele para que a medicasse, ele me disse: " voce pega estes casos?" e eu: "como assim?" e ele me responde: " porque a maioria dos analistas não pega não". Eu fiquei surpresa com este dito e respondí-lhe: " e desde quando nossa funçao de analista, nos permite éticamente a escolher os analisantes?".
Trago este relato aqui para expor uma questão: O que é permitido ao analista quando ele sai de sua funçao, é possível que ele consiga operar saindo de sua funçao?

Levou muitos anos para que Lacan elaborace os conceitos da psicanálise através de seu estudo de Freud e sua elaboração foi toda ela feita através de sua práxis, para que ele conseguisse nos aproximar o mais claramente possível de seus conceitos:

1)o que é um psicanalista?
2) que é uma psicanálise?

Questão esta trazida como herança freudiana, não sem os furos da angústia, a invasão do Real no Imaginário, sem que tenhamos que "ser" psicanalistas mas sim a partir de uma função, um lugar que se ocupa,"poder estar funcionando neste lugar de psicanalista para alguém que nos delega este lugar".

Este "deve pagar com uma libra de carne, com seu des-ser."

E quando sabemos que não estamos mais nesta função de analista? Uma das coisas que não temos dúvida é quando a angústia nos toma,alí estamos nós, os sujeitos, e não o sujeito que abriu mão de seu ser para fazer a função de analista para aquele outro que o procurou para aplacar a sua dor.

E é possível ocupar esta funçâo o tempo todo em uma prática? Lacan mesmo vem nos dizer que não, que isto não é possível. Somos falantes e como tais existimos a partir de uma falha, falta, buraco, seja lá qual significante preferirem.
E quando nossa responsabilidade de dirigirmos uma cura falha, por um erro de cálculo nosso?
É sobre esta questão que me propus discutir aqui hoje.
Vou trazer um pequeno fragmento de minha clínica para exemplificar: Uma jovem senhora que estava em tratamento comigo separou-se do marido e este era " sua segurança". Logo a seguir não sustentou esta posição e decidiu voltar e o marido não quis. Esta senhora então toma uma série de compridos e telefona para seu ex marido para contar-lhe o ocorrido. Ele me telefona e pede uma orientação e eu digo que por mais que ele tivesse suspeitado de uma manipulação dela, era necessário que ele fosse até lá verificar. De outras vezes ela fez a mesma coisa e sempre no intuito de que ele fosse até ela. Como uma determinada vez também tentou se jogar pela janela na presença dele. Aconteceu que depois de alguns meses sem estes episódios,o marido desta minha analisante me telefona de outro país e me diz que ela estava tentando se matar em casa. Eu telefono para ela e ela não atende. Telefono para ele e ele me pede para fazer o que fosse possível para salvá-la, isto depois de uma conversa onde ele ficou com a dúvida de que podería ou não ser manipulação. Pensei então o seguinte: Não foi ela que me pediu socorro, o que eu faría? Angustiei-me com esta dúvida, ao angustiar-me sabía que havía saído de minha função de analista e mesmo assim agí. Telefonei para ela e nem seu telefone de casa nem o celular atendía. Fui até a casa dela e batí na porta. Não atendeu o interfone nem a campainha. Ligo novamente para o telefone da casa e celular. Nada. Chamo os bombeiros e eles quebram a porta. Entramos e ela está estendida no chão. É levada para o hospital e depois de ficar em coma por 3 dias, sobrevive. Depois disto a analisante demorou alguns meses para retornar a meu consultório. De seu relato incial disse-me que eu invadí sua vida, que não tinha direito de interromper sua decisão. Mais tarde disse-me do medo de ter morrido, que ouviu no hospital o médico dizendo que ela podería ter morrido. Depois consegue me dizer que foi naquele momento que decidiu que não tentaría mais se matar e que ficou com raiva de mim porque se eu não tivesse ido até lá salvá-la, ela jamais sabería de seu erro de cálculo. ( ela quando ligou para o ex marido não sabía que ele não estava na cidade)
Daí ficou claro para ela que até mesmo sua decisão de "morrer" ela havía atribuído a mim seu fracasso e foi a partir deste ponto que ela percebeu que sempre que colocasse sua responsabilidade na mão do "outro", ela fracassava.
Em quase 30 anos de prática, vejo que nos 6 analisantes que houve ou o dizer de que se mataríam ou a tentativa de se matarem, e se digo 6 podem ter certeza de que foram exatamente 6, porque isto não é possível de se esquecer, ainda que em nehuma destas tentativas tenha havido sucesso nestas, não posso dizer que sempre houve sucesso em minha condução, isto porque, primeiro, quando o analista saí de sua função ele precisa se reposicionar para verificar quais foram os furos, se os houve, de sua condução e ao mesmo tempo, por parte do analisante, a presença física do analista fora do setting, ainda mais em seu espaço físico mais íntimo que é da casa do analisante, pode ser extremamente invasor e devastador. Se o analisante tomar como "devasta/dor", ele possivelmente continuará sua analise, se não, ele a irá interromper, pelo ao menos com aquele analista que o antendía anteriormente.

Agora, para concluir, direi que mesmo sabendo que saio de minha função pelo sinal de angústia, prefiro me arriscar a escolher o analisante do que o não sair de minha posição e escolher a psicanálise. Isto porque mesmo estando sendo sujeito sob angústia num segundo momento, estarei ainda assim escolhendo a psicanálise, pois impedindo ou tentando impedir a morte de alguém, mesmo que suposta, o que estou escolhendo realmente é a psicanálise, pois como analista a única coisa que posso desejar é que o analisante fale e nada mais, ou seja, "o desejo do psicanalista é de que haja análise, somente este", por isto quando alguém morre, deixará de se manter como falante, então o que pensam que escolhí?

Monday, August 17, 2009



DEPRESSÃO E ANSIEDADE NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA.
A OMS nos informa que nos últimos 10 anos houve um aumento de quase 100% na depressão infanto-juvenil. Entre as causas informadas sobre este aumento, as mais pregnantes foram a violência urbana e o excesso de atividades. O que nós psicanalistas temos a dizer sobre isso?
O que mais observamos em nossas pesquisas é que devido as mudanças culturais houve um verdadeiro declínio da autoridade dos pais e isto não o foi sem efeitos. Cada vez mais os pais passam a maior parte do tempo longe de seus filhos e a educação que ficava a critério na maior parte das vezes das mães com a anuência dos pais, pois elas se referiam a eles para educar, hoje em dia tanto os pais como as mães passam a maior parte do tempo no trabalho e as normas do convívio social são entregues as babás e as escolas. O amor dos pais que era passado através dos limites, segundo a lógica de que quando a criança se submete aos limites ela recebe o amor, foi transfigurada pela culpabilidade dos pais que oferecem objetos, presentes e não a presença de uma palavra que quando dita com autoridade ( não confundir com autoritarismo), possa mesmo ao se ausentarem, oferecem a Lei, os limites de que a criança tanto precisa. O que mais vemos hoje são pais demissionários da função de autorizar-se a transmitir a Lei, a Lei Paterna, como dizemos na psicanálise.Pois quando falamos em transmitir a função paterna, estamos falando da normatização, que implica colocar limites à criança, pois esta ainda é puramente pulsional e serão estes limites que irão possibilitar a criança a não sucumbir as angústias e aos sintomas mais óbvios, tais como a chamada hiperatividade, depressão, problemas de aprendizagem, etc.
Por outro lado, não podendo educar, os pais decidem por colocar as crianças em várias atividades e quando estas chegam a adolescência começam a ser exigidas tanto do ponto de vista de um excelente desempenho escolar quanto do ponto de vista profissional e sentem-se tendo que corresponder a expectativa dos pais. E mais, estas escolhas na maior parte do tempo não será em cima das aptidões de cada um e sim em cima das exigências do mercado, onde os valores são: ser bem sucedido é ser rico. Deste modo, sem recursos subjetivos, os sujeitos se sentem amados pela imagem que passam e não pelo sujeito que eles são. Grande mal entendido, pois o sucesso de um profissional se dá muito mais pela via de uma transmissão da lei do amor e do desejo dos pais. Lembrando sempre que amar é aceitar as diferenças.

Sunday, July 19, 2009

COMO NASCEM OS BEBÊS? OU, A CONSTITUIÇÃO DO SER FALANTE.
Desde que a psicanálise existe, Freud observou a importãncia daquilo que se passava na experiência significante com a criança e como aquilo era determinante na constituição daquele ser. A partir de então, sabemos que uma criança se constitui como sujeito, se estrutura psiquicamente até mais ou menos 5 anos de idade e que todo sintoma apresentado por um adulto, é proviniente desta sua apreensão dos significantes advindos do outro que o constituiu. E que desta forma, do lugar onde cada um é esperado na fantasia inconsciente de seus pais, é que cada falante poderá se estruturar dentro de uma das tres posibilidades, ou nem chegar até uma delas, como é o caso de um autista, mas se puder se constituiir, melhor que se constitua como neurótico, ou seja, se estruture dentro desta cadeia significante que lhe dá acesso a linguagem como usualmente, a maioria das pessoas a tem, ou seja, metaforonímicamente, podendo fazer metáforas e metonimias, coisa impossível para aqueles que se estruturam na psicose, por exemplo. Na estrutura perversa, há a possibilidade da fala se dar como na neurose, ou seja, metaforonimicamente.
Potanto, temos três formas de estruturarmos, quais sejam:NEUROSE, PSICOSE, PERVERSÃO. E há ainda uma forma chamada de AUTISMO, que para alguns psicanalistas é chamada de uma quarta forma de se estruturar, mas que outros, como eu, não chamo de estrutura, isto porque ao sofrer uma intervenção quando ainda a criança é bastante novinha, há casos de intervenções desde os primeiros meses de vida e tenho em minha clinica, uma experiência com uma criança que saiu definitivamente de seu estado autístico que iniciou o tratamento com 2 anos e 8 meses, me impossibilita de tomar o autismo como estrutura, pois a estrutura é o limite, não se modifica a estrutura, o que se pode fazer é o desmonte das identificações e assim ir de encontro com a verdade do desejo de cada sujeito, para somente então decidir o que fazer com sua verdade.
Resumí desta maneira, o de que se trata na constituição do sujeito. Falarei agora disto de uma forma mais fácil para os leigos entenderem claramente:
Ao nascermos caimos num mundo simbólico que nos espera. Nos espera com as palavras ditas por nossos pais( vamos tomar aqui como se todos fossem nascidos com pais, ok?) sobre nós, que somos lindos, maravilhosos, temos os olhos de nosso avó paterno,a doçura da vovó e por aí vai, até irmos crescendo e nos manifestando, vamos nos comunicando cada vez mais com nosso universo social e como isto será aceito ou recusado é que determinará nossa estrutura. Mas uma coisa é certa e segura: precisamos falar com nossos bebês desde o nascimento, falar com ele e sobre ele, por isso que acentuo aqui a importancia fundamental da maneira como somos falados e do quanto isto é determinante na constituição de nossa estrutura e de nossos sintomas. Ex.: uma crinça de 8 anos quando perguntada por mim o que ele pensava ele sobre suas reações agressivas e violentas dirigidas a sua mãe, pai irmã, começou a chorar de uma forma extremamente sentida e me disse: "eu não sei, eu não sei, não quero fazer, mas faço sem saber" e ao perguntar a seu pai sobre o nascimento do garoto, ele me disse: " o bicho já nasceu revoltado, puto da vida, sabe aquele pano que enrolam a criança depois de vestí-la? Saiu arrancando aquele pano, revoltado, não quería ficar amarrado". Este menino reagía com agressividade toda vez que alguém o contrariava ou simplesmente tentava fazer parte de algo que ele estava fazendo. Um bebê que é falado como "bicho" "revoltado","puto da vida" e "não queria ficar amarrado", irá reagir com um saber sobre seu ser que vem do outro e que ele não tem acesso conscientemente, simplemente age aquilo que é do desejo do outro.
Por isso é fundamental que falemos com e da criança quando ela nasce, uma mãe muito depressiva, pode somente cuidar do corpo, alimentando e higienizando e não falar uma palavra com seu bebê, não cuidar de dar suas palavras, com seus sentimentos, "tive medo de deixá-lo triste", disse-me uma vez uma mãe e isto não o é sem efeitos, podendo ocasionar uma dificuldade muito maior na estruturação desta criança, por isso, vamos ficar atentos para com aqueles que cuidam dos bebês e atentem-se para as palavras que irão lhe oferecer.